24 de Fev de 2021

Alterações podem ser neurológicas ou na formação de tecidos oculares

“Prima” da dengue e da chikungunya, a zika parecia uma doença mais branda que as outras transmitidas pelo Aedes aegypti. Mas o aumento do número de casos de crianças nascidas com microcefalia acendeu um alerta para o potencial da doença. Cinco anos depois, já se sabe que o zika vírus pode causar lesões cerebrais no feto em diferentes graus, a chamada síndrome congênita do zika – o que pode levar a diversos problemas nas crianças como desproporção craniofacial, contrações musculares involuntárias, convulsões, irritabilidade, problemas para engolir e alterações auditivas e oculares. No caso das alterações oculares, não se trata só de um mecanismo cerebral.

Ainda em 2016, quando o Brasil passava por uma epidemia do zika, pesquisadores de Pernambuco, estado que concentrava o maior número dos nascimentos de crianças com a síndrome, descobriram uma relação entre o zika e alterações no fundo de olho (que corresponde à retina e ao nervo óptico), comprometendo a visão das crianças. “Até então, a gente considerava na oftalmologia que, toda vez que uma criança tinha zika, a gente tinha que explorar a visão dela porque havia uma possibilidade de dano neurológico, que a gente chama de deficiência visual relacionada ao dano neurológico, mas também que a gente tinha que procurar alterações na retina”, relembra o professor do Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia, Galton Vasconcelos.

O docente conduziu um estudo, publicado na forma do artigo “Corneal ectasia and high ametropia in na infant with microcephaly associated presumed zika vírus congenital infection: new ocular findings”, que levanta a hipótese que as alterações não estariam somente no fundo de olho, mas também na córnea. “A gente descrever o que acreditamos ser o primeiro paciente de zika no mundo com alterações corneanas. Essas alterações criam graus exagerados de astigmatismo. Em uma criança em desenvolvimento, vai gerar um borramento da imagem muito tenso e uma condição que a gente chama de amiopia, que significa que a visão não se desenvolve porque está muito borrada”, detalha Vasconcelos.

O estudo é relevante por dois motivos: primeiro, ele abre a possibilidade de que vírus pode atacar outros tecidos embrionários, que não o neurológico. Esse questionamento é importante para novas investigações científicas. Em segundo lugar, o estudo do professor Galton Vasconcelos faz necessário um exame oftalmológico mais caprichado nas crianças com síndrome do zika. “Isso mostra para gente que toda criança que tenha o zika vírus precisa ter toda a parte neurológica e oftalmológica estudada. E muita atenção aos graus refracionais altos”, sugere.

Achados semelhantes vem sendo descobertos por pesquisadores do Ceará, Mato Grosso e Fortaleza. Para avaliar os resultados, uma nova etapa da pesquisa vai ser realizada em parceria com pesquisadores desses estados para avaliar melhor essas alterações e aprofundar os estudos nas deficiências visuais dessas crianças, área ainda carente de literatura médica.

Conhecimento sobre o zika vírus

Na virada de 2015 para 2016, o zika vírus se propagou rapidamente. Quando foi identificado pela primeira vez no país, em maio de 2015, a doença era considerada uma prima da dengue e da chikungunya, mas com sintomas mais brandos. Mas um surto de bebês com microcefalia no nordeste brasileiro acendeu um alerta do potencial daquele vírus e dos danos neurológicos causados pelo microrganismo. Cinco anos depois, o Saúde com Ciência investiga os avanços científicos e apresenta os desafios enfrentados pelas crianças com a síndrome congênita do zika. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Portal Medicina UFMG