24 de Set de 2020

Após horas olhando os monitores, é comum ficar com a visão embaçada por um período devido à miopia temporária, visão dupla e fadiga ocular

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Maratonar uma série no celular. Trabalhar até de madrugada usando o notebook. Assistir desenho na televisão. O que já era comum na rotina se intensificou com a pandemia. Para o home office, para estudar, na hora de se divertir e ou aliviar o tédio de ficar em casa em razão da quarentena, as pessoas recorreram, com maior frequência, às telas do computador, tablet, smartphone e tevê, objetos com monitores de luz azul-violeta, classificada como prejudicial aos olhos.

Com a saída parcial dos brasileiros do período de confinamento, as queixas oculares resultantes do maior tempo em frente aos aparelhos começaram a chegar recentemente nos consultórios, explica a oftalmologista Dra. Clarice Lagares. De acordo com a médica, a maior procura por atendimento especializado é consequência dos danos do uso excessivo dos dispositivos na visão. O aumento da exposição gera sintomas oculares que caracterizam a Síndrome do Usuário de Multitelas, termo definido por estudiosos também como Síndrome Visual do Computador. Em outras palavras, a condição é provocada pela focalização dos olhos no monitor de vídeo por longos períodos. De acordo com a especialista, o fenômeno acomete quase 90% das pessoas que passam três horas ou mais na frente de qualquer tela eletrônica. "Na maioria das atividades laborativas, o olho é um dos órgãos mais requisitados", esclarece Dra. Clarice.

Segundo Dra. Clarice Lagares, pesquisadores comprovaram que os efeitos da Síndrome do Usuário Multitelas reduzem o rendimento no ambiente de trabalho. Após horas olhando fixamente os monitores formados por luz azul, é comum ficar com a visão embaçada por um período devido à miopia temporária. Outros sintomas são visão dupla e perda de foco por conta da fadiga ocular. Os principais indícios de que há excessos na exposição às multitelas são o olho seco e a convergência ocular. A primeira complicação tem como efeitos vermelhidão, ardor, lacrimejamento, fotofobia (diminuição da tolerância à luz) e prurido ocular (coceira nos olhos).

Técnicas

Para diminuir os danos à visão, a especialista aconselha fazer intervalos de descanso durante o período de exposição. Ela orienta olhar um objeto localizado mais distante ou algo que não requer concentração. Vale também usar colírios lubrificantes a fim de manter as condições da superfície ocular saudáveis. As medidas ajudarão no exercício das atividades com o uso de celular, computador ou tablet. A quem não tem urgência em procurar um acompanhamento especializado e se preocupa com a saúde dos olhos, há técnicas caseiras que aliviam o desconforto na visão, principalmente quanto à coceira. Uma delas é a compressa gelada por 10 minutos. “Costuma ser eficaz nesses casos”, sustenta a médica. Como todo oftalmologista, Dra. Clarice deixa o aviso: “Sempre aplicar qualquer produto na área dos olhos com as mãos limpas”.

Os adeptos das lágrimas artificiais (colírios lubrificantes) podem colocar o produto na geladeira com o intuito de a fórmula ter o frescor da temperatura. Outra dica é lavar os olhos uma vez ao dia com xampu infantil. A tática contribui para o bom equilíbrio lipídico da margem dos cílios, "além de evitar uma instabilidade da flora bacteriana da região", segundo a oftalmologista.

Hora de dormir

A luz azul é dividida entre as radiações turquesa e violeta. Considerada a parte nociva, a tonalidade de cor arroxeada corresponde à energia mais alta da luz visível e, por isso, tende a danificar a retina. A exposição intensa às ondas prejudiciais vai além dos olhos, alterando o funcionamento do ritmo circadiano, ou seja, o relógio biológico humano, capaz de regular o metabolismo para mantê-lo em alerta ou fazê-lo dormir. O método circadiano está diretamente ligado ao trabalho do organismo em virtude da iluminação do ambiente, por vezes, modificada pela luz das telas. Utilizar dispositivos eletrônicos por muito tempo ao longo do dia e permanecer à noite agrava ainda mais os problemas relacionados à visão. Mas, quem sai bastante prejudicado é o corpo, que deixa de produzir hormônios, como a melatonina (regulador do sono).

Ao dar uma espiadinha no WhatsApp, Instagram ou Netflix antes de dormir, ocorre um desequilíbrio na produção da melatonina. O ato de fixar os olhos nas telas iluminadas passa ao cérebro a ideia que o dia continua e, consequentemente, estimula o corpo a ficar acordado. De acordo com o neurocientista Andrew Huberman, da Universidade de Stanford, a resposta para sentir insônia pode estar nos maus hábitos anteriores ao descanso noturno. Conforme explicou Huberman, a liberação de melatonina acelera no escuro, quer dizer, à noite. Gerado em condições normais, o hormônio do sono auxilia na renovação celular, processos inflamatórios, redução do estresse e previne a resistência à insulina.

Óculos “milagrosos”

Com o aumento de problemas oftalmológicos provenientes do uso excessivo das telas, os especialistas viram-se diante de um problema com alta demanda e buscaram soluções eficientes. Uma delas é o óculos com filtro de luz, indicado até mesmo para quem não tem grau. Batizada de Blue Light (Luz Azul, em tradução do inglês), a lente bloqueia a luz azul-violeta, prejudicial aos olhos, impedindo-a de chegar à retina, e permite a passagem da luz boa para a visão.

Dentre as vantagens do óculos com lentes de filtro azul, estão diminuição da fadiga ocular; melhora na qualidade do sono; produção ideal de melatonina; redução ou eliminação das dores de cabeça causadas pela exposição excessiva das telas; e proteção da retina, o que contribui na prevenção de doenças, como catarata e degeneração macular.

Orientação

A qualquer sinal de dor ou incômodo persistente nos olhos, procure um oftalmologista. Na consulta, o especialista investigará possíveis problemas oculares que envolvem distúrbios de visão a serem corrigidos com óculos de grau. Por exemplo, miopia, astigmatismo, hipermetropia e presbiopia (dificuldade em distinguir com nitidez os objetos mais próximos). Traumas, infecções ou lesões ópticas também são constatadas no exame.

Fonte: Portal Metropoles