24 de Abr de 2019

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Os consultórios médicos são palco de muitas coisas bizarras. Este aqui é um exemplo bem particular. Uma mulher de 41 anos se apresentou a uma clínica de oftalmologia nos Estados Unidos com linhas divergentes irradiando através da sua córnea, como se tivesse uma pizza brilhante em seus olhos. Estes cortes são um legado de um procedimento que, felizmente, ninguém arrisca mais, o que torna seu olho uma preciosidade médica cada vez mais rara.

Conhecidas como ceratotomias radiais, essas incisões eram feitas para alterar a forma da córnea para que ela refratasse a luz, com a intenção de corrigir a miopia. Um estudo recente contém um breve relato de uma paciente não identificada que dá um vislumbre dessa era de cirurgia ocular que veio antes que os lasers começassem a ser usados pelos médicos. O desenvolvimento desse procedimento ocorreu graças ao pioneiro cirurgião oftalmologista russo Svyatoslav Fyodorov e a um acidente.

Fyodorov relata ter encontrado um menino que sofreu lacerações em seus olhos quando um soco quebrou seus óculos. Depois de retirar o vidro do olho do garoto, o cirurgião manteve uma vigilância cuidadosa sobre o progresso do paciente, e notou que não apenas o olho se curou, mas a visão melhorou muito. O evento inspirou Fyodorov a tentar corrigir a maneira como a luz refrata através de uma córnea, usando um bisturi afiado e replicando os cortes que ele viu no olho do menino.

Na década de 1970, Fyodorov descobrira que uma série de quatro, oito, 12, 16 ou 32 incisões irradiantes poderiam ser arranhadas em uma córnea de maneira que superasse os erros na flexão da luz. Nas décadas seguintes, sua ceratotomia radial tornou-se uma maneira relativamente popular de corrigir a miopia, permitindo que milhões de pessoas abandonassem seus óculos.

O trabalho do cirurgião russo inspirou outros cirurgiões a tentarem a técnica. Segundo o site Science Alert, que fez uma matéria a respeito do tema, estima-se que mais de 8 milhões de pessoas tenham sido submetidas ao procedimento apenas nos EUA e no Canadá, usando instrumentos e procedimentos de diamantes desenvolvidos por Fyodorov.

Riscos

Infelizmente, logo o procedimento se mostrou perigoso. Relatórios surgiram mostrando riscos elevados de infecção e perfuração. Além disso, os resultados da cirurgia se mostraram inconsistentes e instáveis. No geral, os resultados das ceratotomias radiais foram variados. Um estudo realizado na década de 1990 descobriu que, uma década após o procedimento, um pouco mais da metade dos pacientes apresentava uma visão boa, e apenas um terço continuava a usar óculos.

Porém, muitas pessoas que deixaram de ser míopes descobriram que tinham hipermetropia. Foi o caso da mulher que fez seu relato para um recente estudo de caso. Sua visão se deteriorou lentamente desde que passou pelo procedimento quando era uma jovem adulta. Em um exame mais minucioso, seus oftalmologistas descobriram as linhas distintas da operação, vistas abaixo da cor normal de sua retina. Não havia muito o que os médicos pudessem fazer além de oferecer uma receita mais apropriada e aconselhá-la sobre a importância de usar proteção ocular. Sua hipermetropia ao menos havia parado de aumentar, de acordo com um exame feito seis meses depois.

Hoje em dia, este tipo de cirurgia não é mais feito devido ao avanço das intervenções à laser. Embora elas também tenham seus próprios riscos, seu sucesso não é tão dependente da habilidade e da destreza do cirurgião.

 

 

 

 

 

Fonte: Portal HypeScience