17 de Dez de 2018

Bruno Guimarães Novaes - Oftalmologista e diretor médico do Hospital Oftalmológico Santa Beatriz

O ditado popular “melhor prevenir do que remediar” ilustra bem a relação do ser humano com a medicina, e a saúde dos olhos não é exceção a essa regra. Normalmente, é na velhice que as pessoas começam a se preocupar mais com a visão, devido à diminuição da acuidade desse sentido, mas é muito importante lembrar que, mesmo quando jovem, os males oculares não devem ser considerados impossíveis ou ainda distantes.

Desde bebê, as consultas com os oftalmologistas devem ser feitas, pelo menos, uma vez por ano e, de acordo com a possível patologia diagnosticada, pode ser preciso muitas outras avaliações A consulta é imprescindível para detectar, o mais cedo possível, o surgimento de doenças, o que auxilia muito no processo de tratamento e cura. Às voltas com tantos cuidados na primeira infância, é difícil os pais pensarem nisso, contudo eles não devem deixar a questão em segundo plano.

Poucos sabem mas a catarata pode ocorrer na infância, sendo inclusive a principal causa de cegueira nessa fase da vida. Mundialmente, o problema chega a atingir 0,4% das crianças. O tratamento cirúrgico dos pacientes durante as primeiras semanas de vida responde por resultados bem-sucedidos a curto e longo prazos, contribuindo para um baixo índice de complicações e melhor recuperação dos pequenos.

O clima de descaso com a saúde ocular também pode ser visto no uso indiscriminado de remédios e colírios, mesmo em crianças. Por isso, se deve sempre usar medicações oculares com indicação somente do oftalmologista.

Na juventude, um dos males que costumava surgir mais tardiamente, mas que está se adiantando é o da vista cansada, definida como a falha no processo de acomodação do cristalino, provocando perda de visão para perto. É mais comum após os 40, podendo aparecer um pouco mais cedo em mulheres, e raro em jovens.

Nesses dias de alta conectividade virtual, percebo que a queixa está cada vez mais frequente entre os menores. Mesmo sem dados científicos, há a desconfiança de que o intenso contato com aparelhos eletrônicos estaria relacionado a isso. Além das consultas regulares, nesse caso, é recomendável que a pessoa descanse os olhos após muito tempo com o olhar nas telas.

Além disso, esse contato com as telas pode provocar sintomas no dia a dia, como desconforto ocular, dor de cabeça, ardência e dores nos olhos. Isso acontece porque há um uso excessivo do músculo ocular, que, como qualquer músculo, ao ser usado em demasia, no final do dia apresenta-se cansado. Vale lembrar: o descanso desse músculo é essencial para evitar tais incômodos.

Realmente, com a idade avançada, as patologias são mais frequentes, pois os tecidos oculares também estão suscetíveis aos processos degenerativos provocados pela velhice, como todo o corpo. A catarata é, disparado, a mais comum entre todas, e curável com cirurgia. Dentre elas, também estão o glaucoma, a degeneração macular e as ceropatias. Porém, hoje já temos tecnologia para aumentar a capacidade de visão e qualidade de vida dos idosos, com cirurgias, medicamentos e transplantes, como, por exemplo, a cirurgia de catarata realizada à laser, sem o uso de bisturi e com cortes precisos feitos por aparelhos com a tecnologia de laser femtosegundo.

Infelizmente, não há medidas preventivas para alguns males oculares provindos da idade avançada. O quadro da degeneração macular, entretanto, pode ser atenuado pela ingestão de vitamina A, encontrada em cenouras, e da luteína. Em outros casos específicos da doença, pode haver tratamento com injeções, podendo haver melhora do quadro visual ou estagnação da doença.  Estima-se que 30% dos pacientes conseguem se estabilizar.

A falta de observância com o bem-estar dos olhos pode trazer consequências graves e irreversíveis, que acompanharão o indivíduo durante o resto de sua vida O portador de cegueira que cresce naturalmente nessa condição não costuma experimentar tanto o sentimento de perda. Por outro lado, quem adquire a cegueira depois de já ter enxergado terá um difícil processo de enfrentar a perda e de se adaptar à nova condição, o que redunda em nova percepção do mundo.