22 de Set de 2019

Um novo estudo sugere que perder a visão cedo na vida pode levar a alterações sutis nos circuitos cerebrais, responsáveis principalmente pela audição

Acredita-se que ao nascer cego ou perder a visão cedo pode tornar a audição mais sensível. Mas, embora os estudos tenham mostrado consistentemente que as pessoas cegas parecem ter uma audição mais precisa em alguns aspectos, não sabemos muito sobre como ou onde essa capacidade aumentada realmente aparece no cérebro. Os autores por trás deste último estudo, publicado no Journal of Neuroscience, disseram que o levantamento deles é o primeiro a olhar o que está acontecendo no córtex auditivo, região do cérebro que processa a audição, das pessoas que vivem com cegueira.

“Estudos anteriores analisaram os aspectos comportamentais, e somos os primeiros a tentar lidar com isso de uma forma mais modelada”, disse a principal autora do estudo, Kelly Chang,  que é pesquisadora na área de visão e cognição da Universidade de Washington.

Eles escanearam o córtex auditivo de pessoas que nasceram cegas ou desenvolveram cegueira no início da vida (incluindo algumas pessoas com anoftalmia, uma condição em que a pessoa nasce sem um ou os dois olhos) usando ressonância magnética. Os participantes do estudo também foram escaneados enquanto passavam por testes auditivos em que ouviam tons puros. Estes tons eram tocados em frequências diferentes, e sua atividade cerebral no córtex auditivo era medida quando ouviam estes ruídos. Por fim, os resultados foram comparados com um grupo de controle com visão média. Todos os envolvidos tiveram audiência média.

Eles descobriram que o córtex auditivo era semelhante em ambos os grupos, incluindo seu tamanho. Mas havia uma diferença em um aspecto de como as pessoas cegas e as com visão processavam o som. Nos cegos, o córtex auditivo parecia estar mais sintonizado com as frequências de som tocadas no teste, com base nos tipos de atividade cerebral que os pesquisadores observavam nos escaneamentos.

“Digamos que você quisesse distinguir entre uma nota de baixa frequência e uma de alta frequência. Para pessoas com visão, isso é muito fácil de fazer, já que as notas estão muito distantes umas das outras. Mas em pessoas cegas, provavelmente porque eles só confiam no sistema auditivo, eles são muito melhores distinguir entre frequências muito próximas”, disse Chang.

Outra pesquisa sugeriu que as conexões neurais do cérebro podem ser reorganizadas quando uma pessoa se torna cega, especificamente nas áreas que geralmente processam a visão. Este é um exemplo da conhecida plasticidade cerebral. No entanto, as conclusões, dizem os autores fornecem “algumas das primeiras evidências em seres humanos” que essa compensação pode acontecer em áreas do cérebro que não diretamente afetadas pela cegueira.

“Ver esta reorganização ocorrer numa área tão fundamental é notável”, disse ela.O tamanho pequeno da amostra do estudo (nove pessoas com cegueira precoce, incluindo cinco com anoftalmia) significa que as conclusões da equipe estão longe de serem definitivas. Mesmo se fossem, ainda há algumas questões importantes a serem descobertas, dizem os autores.

Por exemplo, há a questão sobre o que possibilita esta compensação no córtex auditivo no cérebro. Pesquisas anteriores, incluindo algumas da equipe de Chang, sugeriam que estes tipos de mudanças só podem ocorrer quando alguém se torna cego quando criança, e não ocorrem para aqueles que perdem a visão quando adultos. E talvez não seja a perda de visão em si que leva à reorganização do córtex auditivo, mas a necessidade de uma pessoa cega em se concentrar mais em certos sons para poder navegar pelo mundo. Algo que deve ser notado é como as pessoas que se tornaram cegas precocemente processam som e fala em movimento — ruídos complexos que requerem maior cooperação entre diferentes áreas do cérebro.

Estudos futuros para resolver essas questões, que Chang e outros estão trabalhando, poderiam examinar o que acontece com o córtex auditivo em pessoas que estão temporariamente cegas. Eles também poderiam olhar para as pessoas que mais ficaram cegas na idade adulta, incluindo aquelas que conseguem recuperar parcialmente a visão em algum grau.

 

 

 

 

 

Fonte:https://gizmodo.uol.com.br